Peço desculpas por não enviar o gabarito das atividades postadas anteriormente, mas tentarei disponibilizar sugestões de respostas para as próximas postagens. Este está sendo um ano de muito trabalho e pouco tempo. Conto com a compreensão de todos. 28/11/16.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Interpretação de texto c/gabarito


CRIME MAIS QUE PERFEITO
Quando o furgão contornou a esquina e parou diante do nº 168, Davi abriu a caderneta e anotou: Quinta-feira, chegada, 4h 15min. Assistiu ao leiteiro que, com passadas rápidas, deixou o litro de leite à porta e retornou ao furgão, posto logo em movimento. Davi escreveu: saída, 4h 20 min. Embolsou a caderneta, desprendeu-se do pilar que lhe servia de esconderijo. Planejava o crime original.
Voltara para casa assim como saíra, invisível. Subiu a escada, parou no corredor. O quarto de tia Olga fechado, mas, no de Cláudia, a luz riscava o chão pela fresta da porta. Empurrou-a com cuidado, entrou no quarto e contemplou a irmã adormecida. Para Davi, ela seria sempre uma criança. Os olhos dele foram ficando mansos, os lábios esboçaram um sorriso... Um leve ruído: a adoração se encobriu de trevas.
Com a mesma cautela, saiu para o corredor e logo entrou em seu quarto. A lembrança súbita de Jorge Antar dissipou a beleza deixada em seus olhos pela moça em doce sono. Aquele noivado. Revoltava-se com o amor de Cláudia pelo malandro. Conhecia-o bem: vivia de golpes financeiros, além de possuir, em segredo, um harém. O malandro visava à herança da moça, inocente e apaixonada. Não, Jorge não seria o homem de Cláudia, dessa Cláudia que ele, substituindo o pai ajudara a criar. Há dias, por isso, resolvera mudar seu comportamento, não agravar, com novas rixas, suas relações com a irmã. Recolhera conselhos, reprimira censura e ameaças, enquanto o plano diabólico progredia na ardência do cérebro, como o relógio trabalhando no interior da bomba.
Deitado na cama leu a caderneta: “leiteiro” Segunda-feira, chegada, 4h 08 min. – saída, 4h 15 min.; Quarta-feira, chegada, 4h 05 min. – saída, 4h 12 min. Na última anotação: chegada, 4h 15 min. – saída, 4h 20 min. O furgão parava na rua das Margaridas, nº 168, sempre depois das 4 horas da madrugada, e em sua casa às 3 horas, mais ou menos. Plano feito, perfeito. E mais perfeito ainda, porque Cláudia, conforme havia dito, iria passar o fim de semana, na capital, fazendo compras e preparando seu espírito para o casamento.
Davi já conhecia todos os hábitos de Jorge: no sábado, acordava mais cedo, tomava seu desjejum e saía de casa para o “trabalho”, antes da criada entrar em serviço. Aquele plano era exato como a sucessão das horas, infalível como a própria morte...
Sexta-feira, a véspera da perfeição. A noite demorou, mas acabou gerando a madrugada. O motor do caminhão forçou a marcha. Era o leiteiro virando a esquina. Davi ouviu a parada em frente de sua casa; o tilintar de vidros. Os passos de retorno, a batida do portão. Sentou-se na cama, calçou o tênis. Levantou-se, foi à cômoda, abriu a gaveta e meteu o vidrinho no bolso. Apanhando a lanterna, clareou o relógio de pulso: 3h 20min. Calçou as luvas que estavam debaixo do travesseiro. Iluminando o caminho, chegou à sala, abriu a porta, cuidadosamente pegou o litro de leite pelo gargalo e depois seguiu para a copa. Foi à pia, retirou a tampa da vasilha, derramou um pouco de leite, substituindo pelo conteúdo do vidrinho que trouxera. Recolocou a tampa, meteu o litro de leite no bolso largo do casaco. Abotoou o casaco, saiu pela porta da cozinha. Fez sumir na lata de lixo o vidrinho lavado. Luz sobe o pulso: 3h 35 min.
Seguiu para a casa de Jorge, atingindo-a pelos fundos. Agachando-se, escondeu sob o tanque de lavar roupas. Relógio iluminado: 4h.
Depois de dez minutos, o furgão parou em frente à casa. Davi decifrou a jovialidade do entregador pelos passos meio dançados. De novo, os passos. O motor pulsando, a neblina tragando as luzes vermelhas do furgão.
Sempre encostado à parede, Davi caminhou até à porta lateral da casa onde uma pequena entrada o protegia da visão da rua. Na soleira de mármore, aproximou os dois litros de leite.
Levantou-se, enfiou no bolso do casaco o que fora deixado para Jorge, com a mesma precaução, dirigiu-se ao lugar de espera, perto do tanque. Retomou o caminho de volta, pisando sempre na parte cimentada do quintal a fim de não largar vestígios de seu tênis.
A neblina espessa não venceu a intrepidez da caminhada de volta, última pedra do mosaico delituoso. Fechando-se na cozinha de sua casa, sentiu-se liberto. Tonificado pelo descanso de alguns segundos, repôs em seus lugares o casaco, o litro de leite e as luvas. Depois de tirar os tênis, acendeu o isqueiro, aqueceu-lhes as solas para secá-las mais rapidamente. Em seguida, limpou-os com um pano e guardou-os no lugar costumeiro. Preparado para dormir, ingeriu uma pílula. Caiu na cama, com um suspiro de
alívio. Em breve o cansaço e o hipnótico trouxeram o sono que surpreendeu Davi no gozo de sua obra
perfeita.
Quando amanheceu, gritos:
 —Davi, acorda. Acorda, menino!
E a tia Olga começou a agitá-lo.
— O que é que há, titia?
— Estão aí dois homens da polícia que querem falar com você.
— Da polícia? Diga-lhes que descerei imediatamente. Enquanto as mãos trêmulas lavavam o rosto, pensou: “É impossível. Não cometi nenhum erro. Ninguém me viu”. Revisou todos os seus atos: não encontrou a menor falha. Amarrando o roupão, desceu a escada.
 —Sr. Davi Ortiz? Carlos Antunes, delegado de plantão.
— Não estou entendendo...
— Estou aqui em cumprimento de um dever bastante desagradável.
— Como assim?
— Antes de pedirmos a colaboração do senhor, no entanto...
— Sim?
— Jorge Antar foi encontrado morto, esta manhã, na casa em que morava.
— Que horror!
— Ao lado dele, também morta... a senhorita Cláudia, irmã do senhor. Acreditamos que se suicidaram, de acordo com as primeiras investigações, com veneno misturado ao leite.
(Luiz Lopes Coelho, A morte no envelope)
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VOCABULÁRIO:
Furgão: Carro coberto, para transporte de bagagens ou pequena carga.
Fresta: Abertura estreita na parede, para deixar passar a luz e o ar.
Dissipar: dispersar, desfazer, fazer desaparecer.
Visar: Ter como objetivo; ter em vista.
Jovialidade: Alegre, prazenteiro.
Precaução: Cautela, cuidado.
Espesso: Grosso, denso.
Intrepidez: Valentia, coragem.
Mosaico: Embutido de pedrinhas de cores, dispostas de modo que formem desenhos.
 Delituoso: Que constitui delito; culposo.
Tonificar: Dar vigor a; fortificar.
Hipnótico: substância que produz sono.
Gozo: prazer, satisfação.
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1. A frase que apresenta a ideia principal do texto é:
A) “Planejava o crime original”.              
B) “Davi escreveu: saída, 4h 20min”.  
C) “Quando o furgão contornou a esquina”.           
D) “Davi abriu a caderneta e anotou”.   
E) “Acreditamos que se suicidaram.”

2. A intenção de Davi Ortiz ao anotar a chegada e a partida do leiteiro era
A) saber o horário em que o leite chegava nas casas.        
B) evitar que algo desse errado em seu plano.
C) fazer anotações sobre o movimento dos furgões.            
D) conhecer todos os hábitos de Jorge.
E) anotar as casas que recebiam leite.

3. Em “Um leve ruído: a adoração se encobriu de trevas” , o que fez Davi mudar de atitude foi o fato de
A) Cláudia esboçar um leve sorriso.           
B) o quarto da tia Olga estar fechado.
C) ter-se lembrado do noivo de Cláudia.    
D) Cláudia se mexer na cama.   
E) estar chegando a hora de o leiteiro passar.

4. A expressão “...além de possuir, em segredo um harém.” significa que o noivo
A) era um sultão árabe que possuía muitas mulheres.    
B) já era casado.              
C) tinha em sua casa muitas esposas.
D) trocava constantemente de esposas.                           
E) vivia cercado de mulheres.

5. A palavra “trabalho” escrita entre aspas, deve ser vista como uma ironia, devido ao fato de (o)
A) antagonista trabalhar em ofícios desgastantes.         
B) trabalho do personagem ser muito cansativo.
C) noivo possuir um harém.                                          
D) Jorge Antar trabalhar em ofícios não respeitáveis.
E) jovem ser responsável e ter bons hábitos.

6. O local escolhido por Davi para observar a chegada do caminhão, antes do crime, foi
A) o fundo do jardim.                   
B) atrás de um pilar.                         
C) embaixo do tanque de lavar.
D) pequena lateral da casa.         
E) um esconderijo na parede.

7. É característica psicológica do protagonista o fato de ele ser
A) relaxado.    
B) desmotivado.     
C) calculista.        
D) tímido.           
E) jovial.

8. O personagem principal não aprovava o casamento da irmã com Jorge Antar porque
A) o noivo tinha um harém.       
B) o noivo era malandro e mentiroso.        
C) Cláudia não amava o noivo.
D) era muito ciumento.             
E) agia como pai da moça.

9. Todas as frases abaixo são precauções para tornar o crime perfeito, exceto
A) “... pisando sempre na parte cimentada do quintal...”            
B) “Fez sumir na lata de lixo o vidrinho lavado”.
C) “Calçou as luvas que estavam debaixo do travesseiro”.       
D) “... aqueceu-lhes as solas para secá-las mais rapidamente”.   
E) “... contemplou a irmã adormecida.”

10. Ao saber que a polícia estava em sua casa, Davi ficou:                
A) aliviado e feliz.       
B) trêmulo e agitado.              
C) orgulhoso de seu plano.    
D) temeroso de ter sido descoberto.     
E) tranquilo, despreocupado.

11. Apesar de não conhecer o rapaz, Davi concluiu que o entregador de leite era jovem porque
A) entregava o leite com rapidez.                    
B) parecia dançar quando andava.
C) sabia dirigir um furgão.                               
D) a neblina tragava as luzes vermelhas do furgão.
E) acordava de madrugada todos os dias.

12. Para não levantar suspeitas, Davi tomou algumas atitudes com relação à irmã. Uma delas foi:
A) reprimir Cláudia a toda hora.           
B) não lhe dar mais conselho.        
C) não falar mais com ela.
D) contemplar a irmã adormecida.       
E) deixá-la viajar com o noivo.

13. A lógica do título “Crime mais que perfeito” foi fundamentada com o fato de que
A) o personagem principal matou apenas Jorge Antar.     
B) por ironia, Davi matou também a irmã do criminoso.
C) a polícia achava que fosse suicídio.                              
D) tudo fora premeditado com muita perfeição.
E) houve uma total impunidade do protagonista.

14. Com a frase: “Plano feito, perfeito” ,o protagonista concluía que
A) Cláudia casaria com outro homem.      
B) valeria a pena tantas noites em claro.     
C) o crime não seria descoberto.
D) o furgão pararia na rua das margaridas, nº 168.        
E) Cláudia viajaria na véspera do crime.

15. Cláudia Ortiz disse ao irmão que viajaria na sexta-feira para a capital. No entanto, ela se encontrava no (a)
A) companhia do noivo.      
B) shopping, fazendo compras.        
C) quarto de tia Olga.
D) casa de uma amiga.       
E) seu quarto, dormindo.

16. Em “A noite demorou, mas acabou gerando a madrugada”, representa que a(o)(s)
A) noite passava com rapidez.          
B) madrugada demorou a chegar.    
C) era véspera do dia do casamento.
D) horas passaram despercebidas.   
E) tempo estacionou.

17. O fato surpreendente no desfecho da história foi
A) tia Olga gritando desesperadamente.                                           
B) a chegada da polícia na casa de Cláudia.
C) Cláudia não estar preparando o espírito para o casamento.        
D) Jorge Antar ter sido encontrado morto.
E) a morte acidental de Cláudia.

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Gabarito:

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Lendas africanas


O menino grávido

Em um tempo muito distante, nas terras do povo xhosa, havia um homem e uma mulher que se amavam apaixonadamente. No início da primavera, eles se casaram e deram uma linda e colorida festa que agitou a comunidade.
Depois de alguns anos os dois desejavam muito ter um filho ou uma filha que os alegrasse. Mas a criança não chegava. Então eles decidiram ir ao encontro de um famoso Sangoma, que morava na floresta.
─ Pai Sangoma, você pode nos ajudar a ter um filho?
O velho e sábio Sangoma era conhecedor dos mistérios das plantas de toda a floresta e da cira de muitas doenças de corpo e de espírito.
─ Sim, eu posso ajudá-los, mas desde que vocês façam tudo como eu explicar.
Eles concordaram imediatamente e prestaram muita atenção nas palavras do sábio.
─ Vou entregar a vocês quatro raízes de plantas sagradas que vivem nesta floresta. Quando chegarem em casa, vocês devem separá-las em dois montes. O primeiro monte deverá ser aquecido na fogueira, o segundo, colocado com água em uma garrafa. A mulher deverá mascar o primeiro monte de raízes e, no dia seguinte, beber água das raízes do segundo monte.
E o sábio entregou as quatro raízes embrulhadas em um pequeno pedaço de pano, dizendo:
─Em troca, quero que vocês me deem um boi logo depois do nascimento da criança.
O casal concordou e agradeceu muito ao Sangoma. Partiram imediatamente para sua aldeia. Chegando lá, fizeram tudo como ele havia explicado. A mulher ficou grávida. Nove meses depois nasceu um lindo garotinho de olhos grandes e choro forte. Os pais ficaram tão felizes e envolvidos com os novos afazeres, que esqueceram completamente da promessa de enviar o boi para o sábio da floresta.
O menino foi crescendo. Quando estava chegando a adolescência, seus pais decidiram que era hora de ter mais um filho. Resolveram, então, voltar à floresta e pedir mais raízes ao Sangoma.
─ Como vocês chegam aqui e me pedem mais raízes sem ter entregado o boi que eu pedi? Vocês tiveram o que procuravam, mas não cumpriram o acordo.
O pai e a mãe ficaram envergonhados e pediram muitas desculpas para o sábio. Como eles puderam esquecer?
─ É muito fácil não lembrar daqueles que nos ajudaram depois que conseguimos o que queremos ─ falou o sábio, bravo.
Eles pediram desculpas mais uma vez e, cabisbaixos, dirigiram-se à porta da casa do Sangoma para partirem rumo às suas terras.
─ Esperem! Como vejo que não fizeram por mal e se envergonharam do seu erro eu darei a vocês as raízes depois que entregarem o boi que me devem.
O casal agradeceu e voltou para a sua aldeia. Ao chegarem, imediatamnete pediram a um amigo que levasse o boi ao velho Sangoma. O amigo voltou com o recado para que fossem buscar as raízes no dia seguinte.
─ Amanhã temos compromissos aqui na aldeia. Não poderemos nos afastar ─ disse o pai, preocupado.
─ E se enviarmos nosso filho para buscar as raízes? Ele já tem 12 anos e o caminho até lá é muito fácil.
O pai concordou com a proposta da mãe. Então, eles chamaram o menino:
─ Você acha que pode buscar as raízes na casa do Sangoma?
─ Claro, pai! ─ e o garoto pulou de alegria. ─ Já não sou mais criança. Posso ir e voltar bem rápido!
E assim foi. O garoto arrumou sua pequena bolsa e partiu para a casa do Sangoma. Lá, explicou para o velho sábio que seus pais o haviam enviado para buscar a encomenda. O Sangoma entregoulhe as quatro raízes cobertas por um pano e pediu que o menino alertasse os pais para que fossem muito cuidadosos na preparação delas.
─ Não se preocupe. Tudo vai dar certo! ─ e o menino agradecu ao Sangoma e partiu para casa.
Quando estava no meio do caminho, a curiosidade foi tão grande que ele não aguentou. Abriu o pano e olhou atentamente as quatro raízes.
─ Acho que não vai ter problema se eu experimentar só um pedacinho!
E mordeu o pedaço da primeira raiz, muito doce e suculenta. O gosto era tão bom que ele resolveu experimentar mais um pedaço. E depois outro e mais outro. E assim foi, até que não sobrou mais nada das duas raízes doces. Então experimentou as outras duas, mas elas eram tão amargas que ele as cuspiu no chão.
Foi quando ele percebeu o que fizera.
─ E agora, o que vou falar? Só sobraram duas raízes!
Com medo de que sua mãe e seu pai ficassem muito bravos, o menino resolveu não contar a verdade quando chegasse em casa. “ Tomara que essas duas raízes que sobraram sejam suficientes para minha mãe engravidar “ , pensou o garoto.
Logo que o menino chegou em casa, a mãe pediu para ver as raízes:
─ Que estranho, da outra vez eram quatro raízes e agora são só duas... O Sangoma explicou alguma coisa para você?
─ Não, mãe, ele não disse nada. Só falou que a senhora deve aquecer esta raiz na fogueira e depois mascá-la. Ea outra deve ser colocada dentro de uma garrafa cheia de água. No dia seguinte, a senhora deve beber a água.
A mãe e o pai não desconfiaram de nada e fizeram tudo como o menino explicou. Mesmo assim passaram-se os meses e a mãe não engravidava.
Mas o menino... Ele começoua engordar, a engordar, e os seus peitos passaram a crescer, a crescer, ficando cada vez mais doloridos. Sua barriga foi ficando grande e ele sentia como se tivesse alguém morando lá dentro. No quarto mês, o garoto percebeu que esse “ alguém ” começou a se mexer muito.
“ Acho qe estou grávido ” , constatou, desesperado. “ O que eu faço agora? Como vou dizer aos meus pais? E os meus amigos? Todos vão rir de mim! ”
Ele tinha tanta vergonha, quee não contou seu segredo para ninguém. Tinha vergonha de ter mentido para seus pais. Sua família não desconfiou, porque alguns primos do menino haviam ficado muito magros ou gordos quando entraram na adolescência. “ Coisas de quem está crescendo ” , dizia o avô.
Um dia, quando ajudava seu pai a cuidar do gado, ele começou a sentir uma forte dor na barriga, que ia e voltava com uma intensidade crescente.
─ Meu filho, você está bem? ─ percebeu o pai.
─ Pai, preciso ir para casa, deitar um pouco ─ reclamou o menino. ─ Sindo dores fortes na cabeça e na barriga.
─ Vá e peça para sua mãe um chá bem forte, daquele que ela sabe fazer tão bem.
E ele foi embora, mas não para sua casa. Foi para o meio da floresta. Lá, ele cavou um buraco, encheu de folhas e se deitou dentro, como se fosse um ninho. As dores na barriga foram aumentando e, de repente, um choro auto de bebê foi ouvido em toda a mata. Havia nascido uma linda e gorducha garotinha!
─ O que eu faço agora com você? ─ falou desesperado o rapaz, olhando a bebê. ─ O que será de mim? E de você?
A bebê chorava alto e sem parar, mas, quando achou o bico do peito do menino, começou a mamar com muita fome. Depois de mamar bastante, dormiu um sono profundo.
O menino, então, saiu correndo para casa, com medo de que seus pais tivessem dado falta dele. Quando chegou, seu pai já estava na porta para sair à sua procura:
─ Onde se meteu? Você nos deixou muito preocupados!
O menino mentiu e disse que havia decidido descansar embaixo de uma árvore e que acabara caindo em um sono profundo.
─ Mas e a dor que você estava sentindo? ─ perguntou a mãe, assustada.
─ Passou. Acho que foi uma fruta verde que comi ontem ─respondeu o menino.
E todos foram jantar. O menino comeu como se susa barriga fosse um buraco sem fundo. Os pais estranharam, mas depois acharam que era coisa de adolescente, de gente que está crescendo muito rápido.
À noite depois que todos haviam se deitado, o menino se levantou e correu até a floresta. Tinha de ver a bebê. Ela estava chorando e logo parou quando começou a mamar no peito dele. Depois, a bebê caiu no sono.
“ Ela é tão linda “ , pensou ele, enquanto a observava dormir. Pela primeira vez, sentiu que ela era sua filha. Dormiu abraçado a ela e, no começo da manhã, voltou para casa e se deitou na cama antes que sua mãe chegasse para despertá-lo.
Ao longo do dia, enquanto trabalhava com seu pai, cuidando do gado da família, ele sempre inventa um motivo para correr até a floresta e amamentar e cuidar de sua bebê. À noite, quando os pais se recolhiam, ele saia de fininho para a floresta.
Depois de três dias, a mãe começou a desconfiar que algo estava errado. Então, quando a noite chegou, ela fingiu que tinha ido dormir, mas ficou escondida, vigiando o menino. Quando ele se levantou e correu para a floresta, ela o seguiu. Não acreditou no que viu: seu filho estava amamentando um bebê! A mãe logo entendeu tudo e resolveu voltar para casa, antes que o menino percebesse.
No dia seguinte, quando ele saiu com o pai para cuidar do gado, a mãe correu para a floresta e pegou a bebê. Trouxe-a para casa, banhou-a, alimentou-a e brincou com ela. Enquanto isso, mais uma vez o menino inventou uma desculpa para o pai e correu para a floresta para amamentar e cuidar da garotinha. Quando chegou lá, ficou desesperado. A menina não estava no ninho.
Ele a procurou por toda a floresta. Rezou e implorou aos deuses e aos antepassados para que eles o ajudassem. Chorou e chorou. Parecia que haviam arrancado uma parte de seu coração, roubado o seu espírito:
─ Cadê minha filhinha? Cadê?
Já mais nada importava na vida dele, a não ser encontrar a bebê. “ Será que algum animal a comeu? Não podia ter deixado minha filha sozinha... “
E, assim a noite chegou. E, assim a noite foi embora e o sol anunciou um novo dia. Ele ainda estava confuso, procurando a bebê na mata, não sabia o que fazer, não sentia fome nem sede.
No dia seguinte, depois de tanto procurar, arrastando as pernas, ele foi para casa, disposto a contar tudo a seus pais. Quando chegou, sua mãe segurava a bebê no colo.
─ Mamãe, você teve uma bebê? ─ perguntou o menino, quase chorando. ─ Posso segurar? Ela é tão linda!
A mãe ficou em silêncio por um tempo.
─ Sim, meu filho, agora ela é sua irmã. Filha de sua mãe, não mais sua ─ e olhou carinhosamente para o filho. ─ Esta minha filha chegou para mim por meio de sua barriga. Assim como outras filhas e filhos chegam para suas mães por meio da barriga de outras mulheres.
O menino concordou e começou a chorar.
─ Desculpe, mãe. Desculpe, pai, por não ter contado a verdade. Sinto muita vergonha.
O pai, comovido com a dor do menino, disse:
─ Sim, meu filho. Sabemos que você lamenta o que ocorreu. Nunca mais minta para nós em nem tome algo que não lhe pertença.
A partir daquele dia, o menino passou a ter um prazer a mais quando ordenhava as vacas de sua família. Ele não podia mais amamentar sua menina, mas o leite das vacas que ele cuidava alimentava sua irmã. E ela se tornava mais linda e esperta a cada dia, alegrando a todos.
O menino cresceu e se tornou um homem muito sábio e especial, que compreendia a importância e a beleza de cuidar da vida e de alimentá-la.

A Lenda do Tambor Africano
    Corre entre os Bijagós, da Guiné, a lenda de que foi o Macaquinho de nariz branco quem fez a primeira viagem à Lua. A história começou assim:
    Nas proximidades de uma aldeia, os macaquinhos de nariz branco, certo dia, de que se haviam de lembrar? De fazer uma viagem à Lua e trazê-la para baixo, para a Terra.
    Ora numa bela manhã, depois de terem em vão tentado encontrar um caminho por onde subir, um deles, por sinal o mais pequeno, teve uma ideia: encavalitarem-se uns nos outros. Um agora, outro depois, a fila foi-se erguendo ao céu e um deles acabou por tocar na Lua.Embaixo, porém, os macacos começaram a cansar-se e a impacientar- se. O companheiro que tocou na Lua nunca mais conseguia entrar. As forças faltaram-lhes, ouviu-se um grito, e a coluna desmoronou-se.Um a um, todos foram arrastados na queda e caíram no chão. Apenas um só, só um macaquito, por sinal o mais pequeno, ficou agarrado à Lua, que o segurou pela mão e o ajudou a subir.
    A Lua olhou-o com espanto e tão engraçadinho o achou que lhe deu de presente um tamborinho.O Macaquinho começou a aprender a tocar no seu tamborinho e por longos dias deixou-se ficar por ali. Mas tanto andou, tanto passeou, tanto no tamborinho tocou, que os dias se passaram uns atrás dos outros e o macaquinho de nariz branco começou a sentir profundas saudades da Terra e das suas gentes. Então, foi pedir à Lua que o deixasse voltar.
— Para que queres voltar?— Tenho saudades da minha terra, das palmeiras, das mangueiras, das acácias, dos coqueiros, das bananeiras.
A Lua mandou-o sentar no tamborinho, amarrou-o com uma corda e disse-lhe:
— Macaquinho de nariz branco, vou-te fazer descer, mas toma tento no que te digo. Não toques o tamborinho antes de chegares lá abaixo. E quando puseres os pés na Terra, tocarás então com força para eu ouvir e cortar a corda. E assim ficarás liberto.
        O Macaquinho, muito feliz da vida, foi descendo sentado no tambor. Mas a meio da viagem, oh!, não resistiu à tentação. E vai de leve, levezinho, de modo que a Lua não pudesse ouvir, pôs-se a tocar o tambor tamborinho. Porém, o vento soltando brandos rumores fazia estremecer levemente a corda. Ouviu a Lua os sons compassados do tantã(1) e pensou:
    'O Macaquinho chegou à Terra'. E logo mandou cortar a corda.E eis o macaquinho atirado ao espaço, caindo desamparado na ilha natal. Ia pelo caminho diante uma rapariga cantando e meneando- -se ao ritmo de uma canção. De repente viu, com espanto, o infeliz estendido no chão. Mas tinha os olhos muito abertos, despertos, duas brasas produzindo luz. O tamborinho estava junto dele. E ainda pôde dizer à rapariga que aquilo era um tambor e o entregava aos homens do seu país.
    A moça, ainda não refeita da surpresa, correu o mais velozmente que pôde a contar aos homens da sua raça o que acabava de acontecer.Veio gente e mais gente. Espalhavam-se archotes. Ouviam-se canções. E naquele recanto da terra africana fazia-se o primeiro batuque(2) ao som do maravilhoso tambor.Então os homens construíram muitos tambores e, dentro em pouco, não havia terra africana onde não houvesse esse querido instrumento.Com ele transmitiam notícias a longas distâncias e com ele festejavam os grandes dias da sua vida e a sua raça.
O tambor tamborinho ficou tão querido e tão estremecido do povo africano que, em dias de tristeza ou em dias de alegria, é ele quem melhor exprime a grandeza da sua alma."